quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Crônica: A DITABRANDA É MAIS DITA DO QUE A DURA?

por Raul Longo

Vamos à "ditabranda" da FSP! Em 83 viajei ao Chile, Argentina e Uruguai e, de fato, evidente que ali o modelo nazista de todas as ditaduras planejadas pela política norte-americana para Latino-América e implantado pelos milicanalhas destes países, foi bem mais truculento e matou muito mais gente do que o nosso. Mais crianças foram seqüestradas e, daqueles que tentaram resistir, menos os sobreviventes.
Mas considerar a ditadura brasileira mais branda por ter sobrevivido Dilma Roussef, José Dirceu, ou nós mesmos, como entendi de certos comentários, chega a ser de um cinismo, no mínimo, tétrico.
Fico me perguntando a razão e o sentido do termo utilizado pela Folha. Terá querido dizer que os estupros praticados nas sessões de tortura do Brasil foram mais brandos? Talvez minha amiga que durante meses foi diariamente estuprada por 8 homens, houvesse sido muito mais humilhada se fosse estuprada no Chile ou na Argentina.
Infelizmente ela não lê a Folha para perceber a sorte que teve em ser uma prisioneira brasileira, pois assim talvez conseguisse reconstituir-se de seu trauma e voltaria a ter uma vida normal, refazendo suas relações familiares desmanteladas.
E é uma pena muito grande que só agora a Folha nos informe que nossa ditadura foi uma ditabranda, pois se tempos antes, dois de meus amigos que se suicidaram e um que enlouqueceu, poderiam compreender que os choques nos testículos e o pau-de-arara daqui foi muito mais brando do que os de lá.
Vai ver que para a Folha a questão é idiomática, afinal o espanhol além de mais gutural, realmente é mais impositivo. Bem mais brando ser humilhado em português, claro.
Agora, a razão da Folha ter se referido à "ditabranda" talvez seja para justificar o empréstimo dos veículos da frota do Frias para as operações de repressão da SS, aqui versada em DOI-CODI ou DOPS, e que tais, que atingiram seus próprios colegas jornalistas.
Deve ser isso... Só pode ser isso, pois se a Folha se tornou árdua e constante defensora da linha política no governo de São Paulo e o atual governador do estado também foi um dos perseguidos pela ditadura, considerá-la, hoje, "ditabranda", seria nos induzir à conclusão de que a aliança PSDB - DEMO não foi mera questão de governabilidade para o governo FHC.
Mas espera um pouco aí... Lembro agora do FHC abraçado ao Bornhausen, que foi da linha dura da ARENA, pedindo votos ao candidato ao Senado do então PFL pelas TVs de Santa Catarina, afirmando não apenas ser seu aliado político, mas inclusive amigo pessoal.
E quando assisti a isso, reportei-me às primeiras campanhas políticas de FHC, ainda na época da Lei Falcão, quando enfatizava ter sido exilado pela ditadura. Todas essas recordações me dão um nó na cabeça. Afinal, se Bornhausen era um dos radicais da ARENA da ditadura que exilou FHC, quem seria o inimigo do FHC?
Bom... Ao menos isso já ficou claro e hoje todos sabemos que é o Lula. Mas faltava ainda essa explicação da Folha de que o exílio da nossa ditadura, ao menos para FHC e Serra, foi muito mais brando do que o exílio de uruguaios, argentinos e chilenos e do filho de um casal de amigos, coitado, brasileiro nascido na França que até hoje não consegue se estabelecer em lugar algum e, jovem, tem sérios problemas de depressão. Diagnóstico da psicóloga que o atende: síndrome do exílio.
Se nem os descendentes dos exilados e torturados brasileiros se aperceberam que nossa dita foi branda, por quais razões terá a Folha abordado o assunto, já que não foi para desculpar-se de sua ativa e notória participação e apóio ao regime nazista? Estará preparando nosso espírito e nos fazendo entender que FHC e Serra, como seus aliados, têm projetos ditatoriais caso retornem ao poder? Estranho é que até ainda há pouco quem tinha projeto de se eternizar no poder, era o Lula.
Vá se entender! De qualquer forma, lembrando que a de Getúlio foi de uns 15 anos e dos milicanalhas uns 20, dura ou branda, conforme previsto por Bornhausen, a dita Demo-tucana vai aí para uns 30 anos, não acha não?
Raul Longo
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Veja matéria abaixo sobre o editorial da FSP e suas reações... (Mercadopúblico)

Um comentário:

Joel disse...

Raul, querido amigo, além de uma excelente memória, mantém a visão da aprontada que teremos em 2010!
Estas rapinas chaman-se... Fénix.
Do: joel.